O aborto e o pai

Sim, é preciso falar de aborto.

O assunto explodiu mais uma vez quando o STF decidiu que até 3 meses não é crime que não houve crime num certo caso de aborto que estava em julgamento.
Pesado, polêmico, raivoso, fla-fluzado… esse papo dá mais de metro de porrada virtual. Vou pedir paciência com esse texto porque ele é longo e vai demorar um pouco pra chegar onde quero.

Antes de começar quero dar um recado simples a quem diz coisas como:
“Homem não engravida, portanto não pode opinar sobre isso”

Meu recado: Me impeça! 😉

Quem quer vir pro debate adulto e civilzado, venha.

Separei as coisas que mais escuto a favor e contra e vou usá-las pra dar meus 2 centavos de pai não-convencional

[anti-aborto] É pecado!
Se você é religioso/a aborto é errado, legalizá-lo é errado, apoiá-lo é errado. Acabou, não tem conversa. É errado.
Então você não faz, não apoia, coloca sua opinião contra a coisa quando tem chance e se for do tipo missionário até tem o direito de tentar dissuadir as pessoas dessa idéia. É sua liberdade religiosa que ninguém tira.
Mas atenção: não esqueça que Deus deu o livre arbítrio. Se depois de todo o seu empenho alguém resolveu abortar, essa pessoa vai acertar as contas com Deus e não cabe a você olhá-la diferente pelo que fez. É seu direito reprovar o ato, mas não discriminar a quase-mãe. Isso é assunto pra Deus. Ore por sua irmã, pelo bebê e toque a (sua) vida.

[pró-aborto] Não é um bebê, é um feto.
Definições assim são sempre complicadas. Um jogo de palavras pra sustentar um ponto de vista vale? Talvez valha. Você pode usar esse eufemismo se quiser até porque eu também pensava assim… até ver o primeiro ultrassom do Pedro.
Cara, pode falar da definição que quiser. Algo tem que dar muito errado praquilo não ser um bebê. Concordo que seja um feto, aprendi os nomes na escola. Isso pode tirar das suas costas o papo de assassinato, mas nunca vai apagar a responsabilidade de ter tirado voluntariamente uma oportunidade de um carinha sair vivo.

Quando a gente vê uma notícia que uma mulher morreu, é triste. Quando ela estava grávida de 2 meses, é mais triste. Por que será?

Se você é a favor do aborto, que seja. Mas pare com esse negócio de dizer que é um amontoado de células pois todo mundo sabe que aquilo muito provavelmente vai virar uma pessoa. Assuma direito o que você está defendendo. Peite a responsabilidade de decidir por outro ser-humano porque mesmo que considere não se tratar de um, você estará interferindo na possibilidade dele chegar a esse estágio.
“Ah, então os meninos que se masturbam no chuveiro estão abortando vários espermatozóides?” – Não. Aquilo não vira uma criança sem ninguém interferir. Se o moleque nunca transar não vai crescer uma criança no saco dele. Já um feto cedo ou tarde, sem interferência, vira gente.

[anti-aborto] Existem métodos pra se cuidar, que se invista em prevenção e que tenham juízo!
Jovem, se liga! Primeiro que existem coisas como estupro. Depois existem coisas como anencefalia e outras deficiencias severas (se nesse ponto vc pensou em me falar sobre a vontade de Deus, por favor, leia o primeiro tópico de novo). E não venha me falar sobre prevenção que eu duvido que tenha um só leitor desse blog que já não passou um sustinho na hora do fervo, uma camisinha escapada, uma pilula esquecida, uma interrupção não interrompida a tempo. É contra o aborto mas tomou pilula do dia seguinte? Não vou te julgar. Cada um sabe onde e quando seus calos apertam. Só não fique palpitando no calo dos outros depois que o seu já sarou!

[pró-aborto] Meu corpo, minhas regras
Não custa lembrar: Ninguém senão a dona do corpo pode falar um “a” sobre
Fazer ou não uma cesárea
Fazer ou não laqueadura
Fazer ou não sexo
Fazer ou não plástica

Isso não tem nem que ser discutido, só aceito.
Quanto a aborto, discordo que se trate unicamente do corpo da mulher.
É óbvio que não havendo cavalos-marinhos* entre nós, apenas as mulheres aqui sabem realmente tudo que se passa com uma gestante. MAS aquele ser (celulas, feto ou bebê) está ali com a participação de um cara. Calma! Guardem as facas.
O problema de toda lei polêmica é que ela é criada pra proteger o mais fraco e acaba fazendo injustiças com quem devia ser protegido em vários casos. Quero tirar o estupro da jogada por um momento e falar da gravidez indesejada, mas que ocorreu com ato consentido.

Infelizmente o que acontece na maioria das vezes é a mulher que passa por isso se ver desamparada, julgada e abadonada pelo magrão que foi lá e depositou seu material genético. Daí a necessidade de seguir com a gravidez ser uma decisão unilateral. Mas eu quero destacar a injustiça que isso faria quando o cara quisesse o filho, assumisse toda a responsabilidade e se preparasse para dar não apenas um nascimento, mas uma vida. A raiva geral contra homens omissos deixa esses casos quase invisíveis, mas eles existem. Eu não quero pegar essas exceções e sugerir que haja um plebiscito em cima de cada barriga. Só acho válido que caso tenhamos um dia uma regulamentação decente para aborto, se pense sobre isso. Um futuro pai de verdade precisa ter a oportunidade de oferecer uma vida de cuidados em troca daqueles 9 meses de penosidade.

(*) Nos cavalos-marinhos é o macho que gesta.

[anti-aborto] Eu não quero que o dinheiro dos meus impostos financie abortos
Não apele. Você não tem muita idéia de como seu dinheiro é aplicado na máquina pública até porque mais da metade é roubado de alguma forma.
Mesmo assim, abortos feitos clandestinamente nas periferias da vida acabam numa desgraça que tem que ser resolvida pelo SUS. Veja, Sua grana já é usada pra isso!
Nós todos bancamos milhares de coisas que somos contra graças ao sistema democrático. Temos representantes que não necessariamente nos representam e isso faz esse dinheiro ser gasto de formas que nunca aprovaríamos. Eu por exemplo odeio subsidiar igrejas pra que elas fiquem numa boa sem pagar imposto. Representantes dos outros conseguiram isso, paciência…

[pró-aborto] Quem quer abortar aborta de qualquer jeito. A diferença é que a mulher pobre morre
Agora eu vou usar a meu favor o rótulo homem-branco-classe-média: é verdade. Perdi as contas de quantas vezes ouvi a frase “ela vai ter ou vai TIRAR?” quando a barriga da moça interferia no sonho dourado. Algumas tiveram, outras “tiraram”. Estão todas bem. Quem acha que prover isso aos pobres não é serviço do Estado, está na discussão errada. Seu ponto é político apenas. Lei não segura ninguém que quer ou precisa fazer uma coisa. Se vivemos sob um governo que se obriga a dar saúde aos pobres, esta questão deve estar amparada.

Minha opinião
Acho que interromper uma gestação é uma decisão horrível que eu só apoiaria em caso de estupro ou deficiencia severa.
Acho que precisamos de uma lei que permita e regulamente como isso deve ser feito.
Acho que mesmo sendo regulamentado, deve haver um mecanismo para proteger os profissionais que não queiram executar o procedimento.

Acredito que o aborto deve ser uma questão tratada como a eutanásia: a decisão de interromper a vida de alguém que não está em condições de decidir. Não deve ser tratado da forma leviana como tenho visto, encarando o procedimento como remover um cisto ou algo assim. Não se esconda sob definições de “a vida ali ainda não começou” porque é muito mais que uma discussão técnica ou religiosa. É simplesmente algo que nossa espécie ainda não sabe ao certo. Assuma sua posição tratando a interrupção com a seriedade que ela tem e não banalizando um organismo em formação porque isso é desonestidade intelectual.

Tampouco é coisa pra ser decidida por um juiz ou uma comissão. É assunto íntimo, complexo, transformador. É uma dor profunda conhecida em sua totalidade apenas pela mãe que sente na pele o dilema descrito acima com milhares de dedos julgadores apontados pra ela.
Vejo o assunto sendo tratado como um oba-oba onde a aprovação de uma lei incentivaria as pessoas a abortarem. Acordem. Não é um recurso de multa de trânsito!
Regulamentando essas cirurgias o assunto passa a ser permitido, vem esclarecimento para a massa e todo mundo passa a ter informação consistente para tomar sua decisão. Mães terão oportunidade de receber apoio e quem sabe até desistir do aborto com orientação profissional.

Sejam contra o aborto, mas sejam também contra a ignorância. Essa sim tira muito mais vidas do que podemos computar.

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2 comentários sobre “O aborto e o pai

  1. Nunca pensei que eu conseguiria ler um texto tão racional e equilibrado sobre o tema. Sem radicalismo, sem torcida, sem interpretações tendenciosas. Meu sinceros parabéns por esta clareza de ideias.

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