Um parto em partes – II

Você está lendo a segunda parte de uma novela. Caso tenha caído aqui de para-quedas, veja aqui o primeiro capitulo.

…Na porta da maternidade encontramos a Ketellyn, enfermeira obstetriz que contratamos pra acompanhar o processo.

– Valeu irmão! – Falei pro polícia já de saída.

Não tenho costume de chamar ninguém de irmão. Chamei. Foi uma puta irmandade mesmo o que eles fizeram.

Entramos na maternidade de Campinas. Um hospitalzão de mais de 100 anos que é craque em fazer a vida começar. Cheio de regras pé-no-saco, cheio de qualidades também.

– Só pode um acompanhante – eles disseram

A cabeça brigou com o coração e ganhou. Pedi pra Ketellyn ir com a Elaine e fiquei ali na sala de espera num exercício de imaginar e não pensar. Dando noticia pra familia pelo whatsapp sem muito critério.

“Chegou a hora. Estamos no hospital. Depois falo mais.”

A essa hora o Dr. Alysson já tinha passado o bastão da paternidade temporária do Pedro pros nossos compadres Rafa e Douglas. Esses sim diplomados em criança.
A vó logicamente não ia se contentar com esse whatsapp mixo e tratou de bombardear os compadres.

– Elaine tá com dor? Estão bem? Pedro ta aí? Estão escondendo alguma coisa? Pegou casaco?

O hospital atende convêncios e SUS. A movimentação é muito loca e eu sentado ali com o celular na mão vivendo aquela sensação de quem está em outro plano. Como se observasse tudo sem ninguém me ver

– ACOMPANHANTE DE ELAINE!!!

Era eu.

– Ela está subindo. Documentos!

Aparece a Ketellyn

– Oi Flavio. Esta com 8 de dilatação e pediu analgesia.
– 8 é bom? Analgesia é bom?
– Analgesia é porque ela não ta aguentando a dor – disse a Ketellyn
– 8 é quase lá, parceiro. 10 é o maximo! – Disse o segurança. Sim, o segurança. Ele vê isso tantas vezes ao dia que tava mais instruído que eu.
– Valeu irmão! – incorporei o verbete

Numa ante-sala em frente ao elevador me botaram jaleco e máscara. Fiquei ali naquele frio hospitalesco dividindo o ambiente com a Ketellyn, um outro pai e uma senhora que descobri ser sogra-do-outro-pai.

Licença: pessoa chata do diabo. Ficava reclamando da demora e falando sobre morte. Ela nem podia ficar ali e já tinham até falado pra ir embora. Mas ela estava empoderada pela vóternidade e nada poderia removê-la. Começou a falar da nora:

– Ela não queria que ninguém entrasse com ela
– Ué, e porque vocẽs estão aqui?
– A mãe dele (aponta o pai) exigiu
– Oi?
– Ela exigiu que o filho entrasse pra ver o parto da esposa pra aprender o que passa uma mulher. Pra saber como mulher é forte.

Olhei pra Kettellyn, decidimos silenciosamente deixar morrer essa conversa absurda. E deixamos.

Me chamaram. Fui la.
Elaine aliviada pela anestesia espera o Felipe ganhar o mundo.

No hospital, todo mundo te chama de “pai”.

– Pai, você precisa ir lá em baixo assinar a internação.
– Mas agora?
– É. A gente precisa.
– Ah não. Depois eu vou

Circula, circula gente pra todo lado. Cade isso, cade aquilo, o pai tem que assinar, circula, circula, bip bip bip do minitor e o frio do ar condicionado.

– Ja assinaram a internação?
– O pai tem que ir la.
– Ah…

Depois de alguns minutos achando que tinham nos abandonado (ficamos sozinhos por um tempo), chegou a equipe toda. Um médico no estilo vamos-logo-fazer-meu-vigesimo-parto-da-noite manipulava coisas e orientava a equipe com tranquilidade, precisão e frieza. Não teve “boa noite”.

O instrumental tinlintava e Elaine me olhava com medo de uma cesárea surpresa. Tranquilizei-a que eram apenas instrumentos pra pinçar o cordão como se eu soubesse a diferença. Era momento do eu-acho virar eu-sei. Maquiavel mandou lembrança*.

O médico velho ensina ao médico novo usar o vácuo-extrator. Uma espécie de fórceps moderno que parece um desentupidor de pia e acelera as coisas de uma forma meio estranha. Assim:

– Força! Força! Força! Força! Força! Força! Força! Força! Força! Tá nascendo! Força! Força! Força! Força! Força! Força! Força! Força! Força! Força! Força! Força! VAAAI!

Me atrevi a ficar de pé e olhar por cima do pano. Está gravado pra sempre em minha mente o Felipe deixando de ser da Elaine pra ser do mundo.

Imóvel, silencioso, azul. Apgar = 1.
Apgar é uma nota de 0 a 10 que mede a saúde do nascido.
Pegam rápido e colocam num berço aquecido ali do lado.

– Posso ver?
– Não.

Continua aqui!

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(*) “Os fins justificam os meios” – Maquiavel

2 comentários sobre “Um parto em partes – II

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