Um parto em partes – Final

Você está lendo a última parte de uma novela. Caso tenha caído aqui de para-quedas, veja aqui o primeiro capitulo.

Voltei pra casa e peguei com atraso quase todas essas coisas listadas aí em cima.
Tomei um banho. Ser pai de 2 filhos te dá direito a um banho.

De volta ao hospital, finalmente consegui assinar a maldita internação. Entrei no quarto quase junto com a Elaine. Nossa casa pelos próximos dias.
Avós enlouquecidas nos ligavam com manifestações enlouquecidas de alegria e culpa por não estarem aqui pra nos ajudar. Sobrevivemos.

E ali do lado da cama, o Felipe.

Maior barato esse momento que a loucura toda desliga e você vê ali uma criança personificando o deu-tudo-certo nosso de cada dia.
Aqui passa muita coisa pela cabeça, mas uma foi interessante:

Pais sempre comentam ao ver filhos crescidos com personalidade muito diferente: “Como pode? Os dois foram criados do mesmíssimo jeito!“.

Hoje posso dizer que isso é mentira. É diferente desde o primeiro segundo.
Quando vc pega seu primeiro filho você está doidão e fora de si. Você não tem certeza do que está sentindo.
Fica eufórico, tenso, culpado, nervoso, inseguro, com medo, com vontade de chorar, tossir, espirrar, cagar, fotografar, fugir, curtir, formiga o braço, escurece a vista… uma explosão, enfim. É como se alguém passasse a vida alimentado por sonda e de repente provasse um bacon. Você não sabe se está apaixonado ou com ânsia de vômito. Você lembra do seu cacto que morreu e se apavora com a idéia de esquecer de colocar água no bebê.

O segundo não é assim. Você fica sereno e feliz. Você sabe que a vida não tem roteiro, mas uma bela sinopse do que está por vir já está muito bem gravada em você. Da alma aos ossos.
Você já sabe lidar com o bacon, saboreia com calma e já pensa se ainda quer mais um ou se é bom evitar o colesterol.
O dia 1 do filho 2 é diferente porque você tem a calma necessária pra amá-lo desde o primeiro segundo. Seu lugar e sua capacidade não estão mais a prova. Seu cacto não morre mais.

Em 2 dias ali recebemos visitas de amigos queridos e a mais especial: o Pedro, que tratou logo de rodear o irmão e querer de todo jeito pegá-lo no colo. Nossa família adotiva de Campinas compareceu pra conhecer o Felipe e não podia faltar o Dr. Alysson. Ele que apareceu lá no primeiro capítulo agora voltou trazendo sua sinceridade científica quando alguém disse “É a cara o Pedro!”

– Porra, coitado do Pedro!

e consertou…

– Sem ofensa… é que…

e consertou…

– Ah… desculpa.

OK velho! Eu sei que a beleza dos bebês vem com o tempo 😉

Em meio a tudo isso de vez em quando eu voltava pro planeta Terra olhando a Elaine ali curtindo o pós-parto. Forte, serena, valente, mamãe de novo. Mais uma vez com aquele ar de quem foi fazer as unhas, não de quem teve um parto normal (na verdade ela fica mais nervosa com as unhas). Ela nunca foi ativista de nada, nunca revirou a internet em busca das ultimas tendências em parto-de-cabeça-pra-baixo, nunca peitou médico que faz consulta com o bisturi no bolso da camisa. Ela troca os nomes, não se inscreve no grupo de mães, não dá like em página de grávida. Ela só queria saúde pra ela e pra ele. Mãe de carneosso e um coração que pregou peça e susto 2 dias depois. Coisa de quem entra em campo pra dar sua vida por outra. Essa história fica pra outro dia.

Saúde!

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eu-pedro-felipe

4 comentários sobre “Um parto em partes – Final

  1. Nossa, eu AMO teus textos 🙂 Não tem um assunto que eu leia aqui que não pense, PO(rr)XA (não falo mais palavrão depois que os guris nasceram), esse cara lacra, sempre!
    Muita saúde pro Felipe e pro Pedro! Estou na torcida para que saia o livro (aliás, já comprei o meu para ajudar).
    Grande abraço aqui do sul do país 🙂

    1. Oi Jamile.
      Obrigado pelo comentário. Fala de mim aí em baixo!!!
      O fim de ano diminuiu o ritmo das contribuições e tá apertado sair…

      Abração!

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