Quando o pós-parto normal não parece propaganda de margarina – I

Finalmente em casa.
A sensação é aquela ressaca de quem chega de uma longa viagem e olha em volta tentando achar o fio da meada pra retomar a vida. Estávamos loucos pra pegar o Pedro na casa dos compadres mas, com um pouco de remorso, pensamos com a cabeça que seria melhor ajeitar as coisas, almoçar, se encontrar na própria casa e só depois inserir o guri no novo contexto. Tinhamos um novo habitante e uma mãe precisando de tranquilidade.

Foi sábio.

Quando buscamos a euforia não parava. A lingua não parava. O saci não parava. A vida não parava pra esperar o Felipe mamar.
Elaine sentia dores na cabeça e pescoço possivelmente de tanto olhar pra baixo se re-adaptando a amamentação. O Felipe ainda não sabia mexer com isso direito e a mãe tinha a sensação que ia se explodir em leite.

Stress…

Passou o dia, passou a noite, não passou a dor. Acendeu a luz amarela quando pintou o choro.
Eu que não gugo essas coisas dei uma gugada sobre dores assim no pós parto e achei uma incômoda relação com a anestesia. Coisa séria. Deu medo e voltamos pro hospital.

Pinte aí na sua mente Elaine chorando de dor, um moleque de 3 anos e um recém nascido entrando no pronto-atendimento pra esperar não se sabe quanto.
Minha única opção era fingir que tinha tudo sob controle. Fazia 21h no relógio da recepção lotada.

Elaine descolou uma cadeira qualquer e sentou nela apoiando a cabeça no braço´só querendo que a dor fosse embora.
Fiquei ali em pé com o filho velho e o novo pensando até quando eles se comportariam ali em pleno tédio hospitalar. Ninguém levanta da cadeira pra oferecer lugar a homem.

Triagem chama Elaine que volta com pulseira amarela: atendimento em até 30 minutos. OK. Dá pra viver com isso.

Diagnóstico: deve ser a anestesia. Tome remédio por 2 dias e se não passar vc vai precisar fazer uma punção na coluna (!!!).
Ela entra pra tomar medicamento forte contra dor. Começavam ali 3 horas de malabarismo paterno.

Já tinha apresentado ao Pedro todos os cantos da área que tinhamos acesso. Sentiu fome, sede e querofazercocô. Alimentei o bichinho com comida de máquina de petiscos, dessas que bota dinheiro e sai beiconzito. Industrializados hard que ele nem conhecia.

Felipe acordou chorando: Colo.
Pedro ficou manhoso: Colo.
Uma criança em cada braço indo e vindo entre as dores do SUS.
Alerta de fralda! Felipe já estava funcionando bem: onde entra leite, sai cocô.

– Boa noite. Tem um fraldário?
– Tem sim. No banheiro das mulheres
– Só?
– Só.
– Pow… pai também troca fralda!
– Não tem ninguém pra ir lá?
– Não. Minha mulher tá sendo atendida.
– Putz…
– Eu vou lá mesmo, blz?
– Oi? No wc das mulheres?
– Isso. O fraldário é lá, não?
– É.
– Avisa seu chefe que pai também troca fralda. Já volto.

[toc-toc] tem alguem aí dentro?
[toc-toc] licença, entrando!
– Ops… oi moça. Licença. Pode por favor ficar por aqui e avisar pra quem for usar o wc não se assustar comigo? Preciso trocar o menino.
– Aqui?
– É… não tem outro lugar
– OK

Pronto. Resolvido. Sou um pai multi-banheiro. Acho que vou mandar fazer um colete de segurança pra carregar na mochila escrito assim:

“DESCULPE O TRANSTORNO MAS PRECISO TROCAR FRALDAS”

Toda vez que isso acontecer visto o bicho e me poupo de explicações.

Nada mais distraía o Pedro. Ele é um anjo, mas naquele relógio que fazia 21 agora já fazia mais de 23. Socorro, Netflix! Ajudou muito, mas meu plano de dados durou meia hora passando desenho.
Me sentia naqueles filmes de navio afundando onde a galera que sobra no final vai esgotando os últimos recursos e perdendo a esperança de sair com vida.

Felipe chora pra mamar
Peço socorro no atendimento e me pedem pra aguardar
Felipe chora pra mamar
Me pedem mais um minuto
Felipe chora pra mamar
Uma pessoa que não estava falando comigo se levanta incomodada com a inércia

– Por aqui, por favor

E me leva até a Elaine tomando soro numa salinha lotada.
Contorno uma moça que vomitava as víceras em um balde e entrego pra Elaine nosso filho não-vacinado. Imagino doenças contagiosas voando pela sala, gargalhando como demônios fugitivos e volto pra recepção com o Pedro.

00:01 – Hoje já é amanhã.

Finalmente voltamos pra casa sem dor. Nervosos com aquele será-que-é-isso-será-que-é-aquilo?

Vida segue
Noite segue
Dia segue e…
Dor segue.

Forte, intensa, pulsante. Crianças dormem.

– Elaine, cadê seu aparelho de aferir pressão?
– Ta estragado.
– Muito estragado?
– Não sei. Ta estragado.

Fuço o aparelho, conserto e… 18×9

– Muito alto. Ve de novo.
– Mesma coisa
– Você aferiu direito?
– Sei lá. Sou programador, lembra? Devo ter estragado de vez essa merda. Vamos pra farmácia.

Todos pro carro, crianças dormindo e não… não estava estragado. Elaine estava com a pressão muito alta.
Pedro despejado no compadre mais uma vez, hospital mais uma vez. Aquilo tava parecendo sério demais pra voltar na mesma noite.
Continua…

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5 comentários sobre “Quando o pós-parto normal não parece propaganda de margarina – I

  1. Parabéns Flavio e Elaine pela calma que vocês tem para resolver problemas de saúde. Duas vezes enfrentando problemas sérios e sabendo contornar a situação sem apavoramento, pelo menos aparentemente. Muita proteção para vocês e muitas bençãos.

    1. Oi Bruna.
      Estão todos bem. É que depois que os vôs e vós vão embora quase não sobra tempo pra blogar.
      Acabei de publicar o fim da história. Boa leitura! 🙂

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