Quando o pós-parto não parece propaganda de margarina – II

Caso ainda não tenha lido, a primeira parte desta história está aqui.

Elaine estava assustada. Nunca soube o que é ter pressão alta. Estava com medo de estar doente, de algo ter saído errado. Muito errado.

Se despediu do Pedro na casa dos compadres com caraminholas na cabeça imaginando as pessoas comentando “foi a ultima vez que ela viu filho”. Pensamentos macabros de cabeça bagunçada por hormônios, medo e dor. Ela só vai saber agora pelo post, mas eu tava com um puta cagaço de terem feito algo a mais ou a menos no parto dela e precisar de alguma cirurgia de emergência. Sei lá. Não manjo nada de bisturis.

A única certeza é que eu não voltaria pra casa sem uma atitude médica decente. Era um hospital do SUS. Temos convênio, mas o atendimento é com cara de SUS, paciência de SUS, boa vontade de SUS.

A triagem confirmou a pressão alta. Nos explicaram sobre algo chamado eclâmpsia no puépero (pós-parto). Eu achava que eclâmpsia era uma coisa exclusiva da gravidez. Não é. Pode ocorrer depois também. A famosa pré-eclâmpsia é um quadro de pressão alta que, se não tratado, antecede um edema cerebral.

“Ainda bem que seu filho já nasceu, ou seria necessária uma cesárea de emergência”

Não tinha como dar um recado mais claro que a porra era séria. E o alívio veio galopando na frase do médico

“Não vou deixar você ir embora. Vai ficar internada”

Se te parece estranho ficar aliviado ao saber que vai ter que internar sua mulher, informo que é a melhor coisa que pode acontecer quando vc está um tanto cabreiro com a saúde dela.
Foi embora meu preconceito de SUS. Nos atenderam bem pra cacete.

E lá fomos nós ficar internados na semana de Natal. Elaine, Felipe e eu.
Perdemos a primeira consulta do guri na pediatra (aquela que faz dentro de 10 dias) e pedimos pra alguém do hospital fazer essa primeira consulta.

– Mas por que ele perdeu a consulta?
– Porque era hoje e eu estou internada
– Mas ele (eu!) não pode levar?
– Sim, mas não pode dar de mamar.
– Aaaaah, leva uma fórmula, qualquer coisa. Dá sim!

A partir daí eu não sei mais o que ela falou. Acho que examinou o Felipe mas fiquei mexendo no celular até essa pessoa cair fora.

Os dias e noites passaram lentos. A toda hora vinha alguém aferir a pressão e dar remédio. Trocava o remédio, trocava o aparelho, fazia anotação.
Nada de melhorar.

Tinha enfermeira legal, enfermeira cretina que abria a porta rápido acendendo a luz de madrugada, plantonista, clínico, pediatra. Mas cardiologista não tinha. Era uma maternidade afinal. Já pareciam estar se acomodando em dizer “você precisa procurar um cardio fora daqui”.

Bicho! Tirar minha Elaine do hospital com a pressão na casa dos 19 pra tentar uma consulta de UNIMED no dia 23 de dezembro? Mas nem que eu mesmo tenha que parir um especialista!
Com muita conversa mandaram o médico da UTI (intensivista). Depois de um remédio que nocauteou nossa recém-mãe por quase 1 dia inteiro a pressão finalmente começou a baixar.

Nessas sonecas eu fugia do hospital e ia cuidar das compras de natal. A casa já estava cheia de família, ja era dia 23. Íamos pra quase 10 dias de hospital e nada estava preparado. Já estávamos apreensivos em comer panetone ali pelo posto de enfermagem mesmo. Cada vez que o vento abria a porta a gente pulava e perguntava “alta? alta???”.
Quando vinha o médico a gente parecia cachorro vendo a bolinha.

Nos joagaram a bolinha dia 24 pela manhã. Uma alta duvidosa e várias caixas de remédio. A maior orientação era dar tranquilidade à Elaine. A família ponta firme ajudou muito nisso. Encheram nossa casa, cozinharam, lavaram, passaram, cuidaram do Pedro e de tudo como se fosse deles. Um batalhão de ajuda que conseguiu incrivelmente preparar uma ceia em tempo recorde pra 12 pessoas. O prato mais especial era o da Elaine: sem sal.

Noite feliz!

 

Gosta dos textos aqui? Estou reunindo as melhores histórias em um livro que depende de financiamento coletivo pra sair. Contribua e ganhe um exemplar clicando aqui.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *